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Empreendedor
‘A Anvisa está sendo humilhada pelo Congresso’, diz oncologista
27.03.2016 enviado às 16:24
Texto:
Carlos Gil diz que a Anvisa é humilhada por deputados e senadores (Imagem: Da Net)
SÃO PAULO (SP) - Qualquer medicamento deve ser submetido a rigorosos testes e autorizado pelos órgãos de saúde antes de chegar a farmácias ou hospitais. Deputados federais e senadores, porém, não pensam assim. O projeto de lei que permite fabricar e distribuir a fosfoetanolamina sintética foi aprovado pelo Congresso e vai ser submetido à presidente Dilma Rousseff. 
 
Fruto de pesquisa do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, a substância chegou a ser distribuída localmente, e alguns relatos de pacientes dizendo que as pílulas reduziram seus tumores ganharam redes sociais e geraram pressão pela produção em larga escala. Mas a molécula jamais teve sua eficácia comprovada. Só agora estão sendo realizados os testes necessários, financiados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.  De acordo com o projeto de lei, para obter a substância, o paciente só precisará comprovar a doença com laudo médico e assinar um termo de responsabilidade. 
 
Nesta entrevista, o oncologista Carlos Gil, especializado em pesquisas sobre novos fármacos, faz críticas à aprovação “demagógica”, o que, segundo ele, causa “danos irreparáveis” à ciência.
 
CONFIRA A ENTREVISTA
 
GLOBO - O que representa para a ciência a proposta que permite distribuir a fosfoetanolamina sintética antes de ser devidamente testada?
CARLOS GIL - Lamentável. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que tem qualidade reconhecida internacionalmente, está sendo humilhada pelo Congresso. Mesmo se a lei não for sancionada, a aprovação dos parlamentares já representa um dano irreparável para a ciência brasileira. É uma decisão totalmente demagógica. Preocupa muito essa interferência num processo de liberação de medicamentos.
 
GLOBO - O projeto será levado à presidente. Qual é a expectativa?
CARLOS GIL - A expectativa da comunidade científica é que a Dilma vete. Os parlamentares estão pensando no ganho político, e não na segurança da população. O medicamento pode até não ser tóxico, mas pode ser inócuo. É preciso gerar fatos para estabelecer sua eficácia contra o câncer.
 
GLOBO - Como esses fatos são gerados?
CARLOS GIL - Por meio dos testes adequados. As fases pré-clínicas, antes dos testes com humanos, se dividem em várias etapas. As primeiras ocorrem com células in vitro, em que se observa a atividade antitumoral da molécula que está sendo analisada. Dependendo dos resultados, avalia-se o desempenho da substância em animais, desde camundongos até macacos. É um trabalho complexo, para saber, por exemplo, se a droga é eficaz e se tem efeitos colaterais, como perda de peso ou até a morte do animal. O objetivo é poupar humanos de receber substâncias tóxicas ou ineficazes. Para se ter uma ideia, de cada mil moléculas avaliadas, só uma se mostra apta para testes em humanos.
 
GLOBO - O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação divulgou, em 18 de março, resultados negativos para os primeiros testes com a fosfoetanolamina...
CARLOS - Foi importante a decisão do ministério de financiar os estudos. Se existem indícios de eficácia e esse clamor todo da sociedade, cabe à academia dar uma resposta. O que ficar concluído deve ser acatado, porque há um grupo de alto nível à frente dessas pesquisas. Por ora, eles estão fazendo análise do grau de pureza, que já mostrou que menos de 30% da substância é fosfoetanolamina de fato. Os primeiros resultados também mostraram ineficácia contras as células de tumor in vitro. Mas é cedo para conclusões, uma série de estudos ainda é necessária.
 
GLOBO - A fosfoetanolamina já foi usada por muitas pessoas, que obtiveram a substância na USP de São Carlos, e não se tem notícia de efeitos colaterais.
CARLOS GIL - Aparentemente, a substância não representa risco, mas acho que é inócua.
 
GLOBO - Como o senhor tomou conhecimento sobre essa pílula?
CARLOS GIL - Foi há quatro anos, quando eu trabalhava com a Redefac (Rede Nacional para o Desenvolvimento e Inovação em Fármacos Anticâncer, ligada ao Ministério da Saúde), cujo objetivo era buscar, no Brasil, potenciais moléculas que pudessem ter eficácia. Uma delas foi a fosfoetanolamina. Os dados, muito poucos, mereciam ser investigados. Na época, recomendamos mais estudos aos pesquisadores, mas não tivemos resposta. Não ouvi mais falar sobre o assunto até ano passado, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) tomou a decisão que gerou toda essa bola de neve (leia o texto no fim da entrevista).
 
GLOBO - Na sua opinião, por que há tanta gente acreditando que a fosfoetanolamina realmente cura o câncer?
CARLOS GIL - É um fenômeno. Pode ser explicado, em parte, pela necessidade de se acreditar em alguma coisa. O brasileiro está com falta de fé nas instituições. Aí surge alguém dizendo que foi descoberta a cura para o câncer e que o governo não deixa distribuir, e muitas pessoas acreditam. A informação circulou nas redes sociais, e, pelo menos no início, parte da imprensa também ajudou a divulgar a ideia de que a molécula realmente funciona.
 
POR WILLIAM HELAL FILHO (O GLOBO ONLINE)
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