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Colunista


Antonio Cavalcante
Juiz Federal da Vara do Trabalho de Guarabira-PB, articulista do Fato a Fato, escritor e professor universitário (UEPB).
Arrumação
22.02.2016 enviado às 00:19
Texto:

Passadas as festas, repito a rotina de começo do ano. Subo ao meu cantinho da morada e me ponho a rasgar papéis, arrumar estantes e gavetas. Mais do que dispor objetos de forma ordenada –  confesso que não sou tão organizado quanto gostaria de ser e sei que a desordem é apenas uma ordem que para certos fins não convém –,  para mim essa arrumação é quase um ritual, que me faz revisitar o que fiz e pensar no que ainda posso fazer. Quantos retalhos de vida retratados ou anotados em pedaços de papel. E também é preciso arrumar as fotos e gavetas das mídias digitais, mais fáceis de se perderem no oco do mundo virtual. Sinto-me como se estivesse a revirar um baú de coisas velhas e novas, como o tesouro do texto sagrado, nele buscando ajuda e orientação para  viver.
                         
Começo separando o que deve ser guardado, o que pode ser doado e o que merece ser descartado.  A tarefa nem sempre é fácil como escolher feijão para botar no fogo. Papéis de contas pagas que o tempo não mais permite serem cobradas, ou com anotações que repasso para arquivos digitais, para estes não há hesitação da falta de serventia.  Entre eles quase sempre encontro anotações avulsas, e vejo que continuo fazendo justamente o que aconselho a meus alunos não fazerem – em seu estudo, digo eu,  aprendam a se documentar e não se fiem em pedacinhos de papel. Porém, diante de outros tipos de objetos sempre bate a dúvida. Se nem tudo que é antigo é relíquia, não é qualquer coisa nova que vale mais que um objeto antigo, quando este é sinal sensível de um momento importante da vida, como se fosse um sacramento.
                        
Diante de uma partitura de meu pai, suspendo a separação dos objetos para entremear a arrumação com música, tentando transubstanciar as notas do pentagrama em sons do meu clarinete, que com ele aprendi a tocar. E de um  pequeno manuscrito de minha mãe, com os nomes de minha vó Ambrosina, meu avô Antonio, minha vó Francisca e meu pai João, e datas de nascimento e morte de cada um,  o coração cheio de saudade e lembrança leva minhas mãos a guardá-lo de volta na gaveta do que jamais penso em rasgar, por ser parte do meu tesouro pessoal.
                       
Neste também incluo minha primeira carteira de estudante, do Colégio Estadual, com assinatura do Diretor Edgardo Júlio. E eu que passei tanto tempo sem saber o o paradeiro da carteira, nem dar pela sua falta. Mas depois que minha mãe morreu, descobrimos que ela, sem nada nos dizer, mantinha a carteirinha na gaveta das coisas de que não quis se desfazer.  Fico imaginando minha mãe a olhar a foto daquele menino tímido de dez anos, sabendo que, para toda mãe, um filho nunca deixa de ser menino.
                        
Meu ritual, porém, não para nas recordações do passado. Arrumar também é dar um rumo, e minha arrumação serve para pensar o rumo de meus projetos e sonhos. Ler os livros que ainda não li, assistir a filmes que não me dou tempo de vê-los, rever amigos e parentes que prometo um dia visitar e não visito, viajar sem medo dentro e fora de mim, fazer o que de bom ainda está por fazer, antes que os contratempos da vida ou o tempo da morte não mais me permitam.
                        
Quando eu ainda era o menino tímido da foto, ouvia da Irmã Leal, que tive a felicidade de rever e abraçar neste fim de ano, que a gente devia agir como se cada dia fosse o último da nossa vida. E como disse Paulo não só aos Coríntios, mas a todos nós, mais dia, menos dia, a tenda terrestre em que vivemos se desfaz, e a morada do “para sempre” não é construída por mãos humanas. Mas enquanto habitamos a tenda provisória, temos de arrumar não só gavetas a cada ano, mas a vida, todos os dias.
                        
Não descartemos, pois, os dons que Deus concede a cada um de nós. Doemos aos outros o que de melhor podemos dar. Saibamos dar valor ao que realmente tem valor. E façamos de tudo para não guardar sentimentos ruins no coração. Para arrumar a vida, nosso coração deve ser relicário de amor, capaz de amar tesouros que não se desfazem como a tenda terrestre em que vivemos.



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